Minha causa, minha vida.
- 9 de mai. de 2016
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Será que precisamos lutar por tudo? Bom, aparentemente a geração das redes sociais, apelidada carinhosamente de “geração mimimi”, acredita que sim. É necessária uma causa para lutar ou uma ideologia pra viver, como já provocava o Cazuza.
O brasileiro tem uma dificuldade de conversar sobre as próprias feridas. Sempre se autodenomina como um povo alegre, pacífico e cordial, negando seus demônios, mesmo com mais de 500 anos de história sofrida mostrando o contrário. Usando como foco o preconceito, tema recorrente nas redes sociais, o brasileiro usa de sua cordialidade para velar seu racismo, machismo, xenofobia, homofobia ou qualquer outro tipo de ódio ao diferente.
O “Homem Cordial” - tão bem retratado por Sérgio Buarque - utiliza da piada, do discurso escorregadio e do famoso “jeitinho brasileiro”, para maquiar o preconceito cotidiano. Esse tipo de atitude mascarada é uma forma perigosa de perpetuar a ignorância, que se apresenta de forma cada vez mais criativa e algumas vezes já manjada, como: “Ela é bonita, apesar de ser uma pessoa de pele”; “Não tenho nada contra gays, só acho que Deus não fez Adão e Ivo”; “Mulher pode ser o que quiser, mas deveria ter um foco maior para a família”; “Não tenho nada contra nordestinos, tenho até alguns conhecidos que são, só acho que não tem mais espaço pra eles em SP”; “O pobre só sabe mamar nas tetas do governo.”
Aqueles que se identificam com uma causa, seja pelas mulheres, pelos pobres, pelos negros ou refugiados, aprenderam a reconhecer esse comportamento velado e não se silencia mais, utilizando as ruas e principalmente as redes sociais para praticar tal militância. Se antes, a mobilização precisava de um crime explícito de preconceito para acontecer, hoje estamos aprendendo a interpretar e ler nas entrelinhas, como no famoso caso da revista Veja com sua infeliz matéria “Bela, recatada e do lar”.
Mas infelizmente nem tudo são flores. A militância em grupo nas ruas ou nas redes sociais são fáceis de serem praticadas, quando comparada com o ativismo solitário do dia-a-dia. São inúmeras as situações preconceituosas veladas que precisamos lidar, seja no trabalho, no almoço em família aos domingos ou no encontro com os amigos da faculdade. E, muitas vezes, por medo de perder o emprego, de receber olhares tortos da família e perder amizades, nos calamos e acabamos compactuando com tal conduta. Daí vem aquele sentimento de impotência e omissão.
Muitos dirão que o correto é impor seu ponto de vista e ensinar que o outro é preconceituoso, mas eu não acredito em catequese. A reflexão é que possibilitará alguma mudança de comportamento, caso contrário serão apenas duas bocas narcisas e nenhum ouvido. Creio que talvez esse seja o maior problema de alguns grupos militantes: o discurso de ódio rebatido com o mesmo sentimento e intensidade. Daí nascem os termos feminazis, ditadura gayzista, vitimismo, etc. Concordo com o Tio Nelson Rodrigues quando diz que “Sem paixão não dá nem pra chupar um picolé”, mas também acredito em outra máxima: “A paixão cega”. Então para a religião, futebol e política acredito que devemos agir com a razão. Lutar por uma causa é um ato político, e tal ato deve ser racional. A histeria deve permanecer com os ignorantes.
O preconceito é uma prática criada pelo homem, e tal prática pode ser desconstruída. O combate deve ser feito com o diálogo, o questionamento e a repetição dos temas, para que nunca caia no esquecimento. Todos nós temos preconceitos, medos ou chips implantados e carregados de princípios conservadores, mas podemos mudar praticando a autocrítica e a autocensura. O seu direito de fazer uma piada com um negro, por exemplo, não pode ser superior ao direito do negro de ser respeitado. Ter empatia é um exercício diário, que infelizmente não permite glúteos mais duros, mas gera uma sociedade mais justa.
Me sinto feliz e orgulhosa de fazer parte da “geração mimimi”, que não quer só comida, diversão e arte, mas também uma causa para lutar.

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