Existe amor em SP
- 18 de dez. de 2015
- 3 min de leitura

Escrever um post sobre a abertura da Avenida Paulista aos domingos parece um ato suicida da minha parte, afinal estamos diante de um cenário político apocalíptico, repleto de pessoas inflamadas nas redes sociais, onde qualquer posicionamento sobre qualquer assunto se transforma numa apologia partidária. Mas seguindo aquela máxima “Sou responsável pelo que digo, não pelo que você entende”, vou compartilhar com vocês a minha experiência prazerosa na mais paulistana das avenidas.
Já tive a oportunidade de aproveitar um domingo no Minhocão, primeira grande via a ser aberta aos domingos para lazer em São Paulo, e pude perceber uma mudança na relação das pessoas com o centro da cidade, que sempre é tão estigmatizado. Além das bicicletas, dos skates e dos hipsters (rs!), vi muitos turistas aproveitando a via elevada como mirante para tirar fotos estratégicas dos prédios do centro, como o Edifício Itália. Bom, se devemos destruir ou revitalizar esta é outra questão, pra mim o que é importante é que pela primeira vez o Minhocão, que sempre foi uma cicatriz urbana, está sendo visto além da ligação Leste-Oeste, com olhos mais humanos e preocupados com a cidade.
Tendo como base essa experiência no Minhocão, resolvi ir até a Avenida Paulista para entender toda essa polêmica. Para quem não sabe, desde o mês de outubro nossa amada avenida está aberta aos domingos para as pessoas como área de lazer. Muitas manchetes foram geradas depois dessa decisão da prefeitura, até multa do Ministério Público rolou, e o que consegui extrair de todo o debate é que as pessoas não conseguem ver além da disputa de partidos. Basicamente se opõem ao programa por serem contra o partido da gestão municipal vigente.
Vou propor um exercício: E se tentarmos ver além da disputa FLA x FLU?
No domingo que escolhi para andar na Paulista, vi diversas atividades lúdicas, inúmeros artistas de rua se apresentando e muitas pessoas se divertindo, apesar da chuva fina que caía. Percebi então que a abertura da avenida para nós cidadãos, é um ato de ocupação e um ato político, de retomada das nossas vidas urbanas e da fuga do cárcere dos nossos "condomínios-clube".
Pesquisei e vi que o Programa Rua Aberta, irá estender a ação para outras vias importantes da cidade, incluindo ruas da periferia, criando mais opções de lazer e evitando grandes deslocamentos, além da saturação dos espaços públicos, como o Parque Ibirapuera. Importante ressaltar que tal ação é positiva e deve ser estendida mesmo, mas sem excluir o fato que precisamos de mais áreas verdes e parques urbanos para o bem ambiental da nossa cidade.
E atenção! Se liga aí que é hora da revisão:
São Paulo tem 461 anos e sobrevive apesar de todas as gestões municipais equivocadas. Os erros são muitos e não é apenas desta gestão. No entanto, toda e qualquer ação pública que tente resgatar a relação afetuosa do cidadão com sua cidade é válida - independente do partido - pois percebemos que cada metro quadrado nos pertence. Da mesma forma que não colocamos qualquer pessoa na nossa casa por zelo, pelo mesmo sentimento, não colocaremos qualquer pessoa na prefeitura e no governo do estado. Portanto, a retomada do SOLO influencia no VOTO.
A cidade é um produto da ação das pessoas para as pessoas, isto é, ela não é feita para veículos. Antigamente, na Avenida Paulista passavam carruagens e bondes. Hoje, a via deu lugar aos ônibus, carros, pedestres e ciclistas. Portanto, nenhuma rua ou avenida é estática: os modos de ocupar e circular se transformam e é próprio da política pública promover estas transformações. Impactos existem e erros acontecem, mas é preciso tentar e sair da inercia.
A Avenida Paulista é a avenida mais emblemática de São Paulo. É o centro financeiro, cultural e democrático da cidade, mas se você ainda acha que este debate não é apropriado, simplesmente por achar que tal via é apenas uma faixa de rolamento, que te leva da Avenida Bernardino de Campos até a Avenida Angélica... Baby, você não sabe o que é ser paulistano. Period.
Beijos,
Chris!
Ps: Como esse post foi mais reflexivo, farei um outro com dicas do que fazer aos domingos na Paulista.

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